1 de junho de 2013 às 14:47

Dislexia de leitura x Síndrome de Irlen


BENITEZ, Nadia Cristina
AYRES DA SILVA, Jayme

RESUMO

Muito tem se estudado ao longo dos anos sobre os problemas que permeiam o processo de ensino aprendizagem na vida escolar de crianças das séries iniciais. Contudo, sobre o assunto específico da dislexia de leitura ainda não houve estudos conclusivos que tornassem unanimes tanto nas áreas médicas como pedagógicas, para se chegar a uma definição plausível sobre a dislexia. Essa pesquisa se fundamenta nos autores CAPOVILLA, ALMEIDA, IRLEN et al., que se dedicam nas investigações direcionadas à Educação visando possibilitar compreensão e entendimento aos profissionais da Educação sobre os problemas que permeiam o processo de ensino/aprendizagem. Diante disso, confrontar Dislexia de Leitura com a Síndrome de Irlen irá demonstrar uma nova ótica para fundamentar os debates de estudiosos da educação para se atentarem a uma real e comprovada deficiência no processamento visual que desencadeia problemas muito similares com que se descreve na dislexia de leitura, contudo, há uma forma de diagnosticar tão específica que elimina qualquer possibilidade de dislexia de leitura, bem como uma indicação nada evasiva e nem medicamentosa que auxiliará a criança portadora dessa Síndrome de forma confortável, barata e eficaz.

Palavras-chave: Dislexia, Síndrome de Irlen, criança, aprendizagem, educação.

ABSTRATIC

Much has been studied over the years about the problems that underlie the process of teaching and learning in the school life of children in early grades. However, on the specific subject of reading´s dyslexia yet there were no conclusive studies that became unanimous in both the medical and educational fields, to arrive at a plausible definition of dyslexia. This research is based on the authors CAPOVILLA, ALMEIDA, IRLEN et al., engaged in research aimed at understanding and education in order to facilitate understanding in the education professionals about the issues that permeate the teaching/learning. Thus, confronting reading´s dyslexia with Irlen Syndrome will demonstrate a new perspective to support the discussions of education´s scholars to attend to a real and proven deficiency in visual´s problems processing that triggers very similar to described in reading´s dyslexia however, there is a way to diagnose so specific that eliminates any possibility of reading´s dyslexia, as well as an indication nothing evasive, without drug, that will help children with this syndrome in a comfortable, inexpensive and effective way.
Key-words: Dyslexia, Irlen´s Syndrome, child, learning, education.

1.0 INTRODUÇÃO

Segundo um levantamento feito pela Associação Brasileira de Dislexia (ABD), em média 40% dos casos diagnosticados na faixa mais crítica, entre 10 a 12 anos, são de grau severo, 40% são de grau moderado e 20% de grau leve.
Em verdade, o que tem acontecido atualmente, é que tudo aquilo que não se encontra um nome, não tem uma exata origem, gera dúvidas no diagnóstico, é jogado no “imenso saco” onde se encontra a dislexia. Há uma grande necessidade por parte dos pais, equipe pedagógica da escola e até mesmo pela sociedade em geral de nomear os problemas que são caracterizados pelas crianças em idade escolar inicial. A criança na maioria dos casos é só a ponta do grande “iceberg”, e a maioria dos problemas tem origem principal na constituição da própria família que hoje, esta sendo desmembrada e desvalorizada em nossa sociedade, contudo, os pais não aceitam ou, negam assumir a responsabilidade pelos problemas e dificuldades da criança. Essas crianças vivem em um ambiente tenso, desarmonioso, de conflitos, separações, muitas vezes sendo abusada sexualmente, até mesmo abalada pelo surgimento de um novo membro na família, no caso a gestação da mãe, perda de um ente querido, e a criança acaba sendo retalhada pela escola, julgada pelos pais, e menosprezada pela sociedade que a cerca. Então, como é a criança que esta apresentando o “problema” ou, melhor dizendo, esta “sinalizando” uma situação de desconforto, acaba tornando-se vítima da situação.

Ainda há outra ocasião que se tornou comum com a nova regulamentação de ensino, é a precoce iniciação da criança em séries de alfabetização, que prejudica todo o desenvolvimento cognitivo da criança, pois não respeita as etapas do desenvolvimento neurológico do sujeito e, gera uma real dificuldade de aprendizagem, pois essa criança não esta maturada para acompanhar as atividades pedagógicas no nível em que foi inserida.

Essa pesquisa visa proporcionar uma real contribuição para a neuropedagogia de forma promover o reconhecimento de uma Síndrome que esta se difundindo no Brasil há apenas 5 anos, e com isso, será possível fazer uma real avaliação de aprendizagem no que diz respeito a dislexia de leitura.

2.0 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

2.1 Pesquisa bibliográfica

Esse artigo se trata de uma pesquisa bibliográfica “elaborada a partir de material já publicado, constituído principalmente de livros, artigos de periódicos e atualmente com material disponibilizado na Internet (MINAYO; LAKATOS, 1985)”.

2.2 Pesquisa Qualitativa

Segundo Minayo, 2007, na pesquisa qualitativa se verifica uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números.
A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa. Não requer o uso de métodos e técnicas estatísticas. O ambiente natural é a fonte direta para coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave. É descritiva. Os pesquisadores tendem a analisar seus dados indutivamente. O processo e seu significado são os focos principais de abordagem (MINAYO; LAKATOS, 1985).

Sendo assim, a pesquisa bibliográfica estará referenciando pesquisas publicadas, visando analisar e discutir as contribuições que os diversos autores problematizam fornecendo ao pesquisador um leque variado de conhecimento e uma excelente bagagem teórica.

3.0 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.1 Como definir dislexia

A definição mais utilizada, segundo a ABD é a de 1994 da International Dyslexia Association (IDA): “Dislexia é um dos muitos distúrbios de aprendizagem. É um distúrbio específico de origem constitucional caracterizado por uma dificuldade na decodificação de palavras simples que, como regra, mostra uma insuficiência no processamento fonológico. Essas dificuldades não são esperadas com relação à idade e a outras dificuldades acadêmicas cognitivas; não é um resultado de distúrbios de desenvolvimento geral nem sensorial. A dislexia se manifesta por várias dificuldades em diferentes formas de linguagem frequentemente incluindo, além das dificuldades com leitura, uma dificuldade de escrita e soletração”.

Em 2003, o Annals of Dyslexia, elaborado pela IDA, propôs uma nova definição: Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem de origem neurológica. É caracterizada pela dificuldade com a fluência correta na leitura e por dificuldade na habilidade de decodificação e soletração. Essas dificuldades resultam tipicamente do déficit no componente fonológico da linguagem que é inesperado em relação a outras habilidades cognitivas consideradas na faixa etária. Tal definição contou com a participação de vários profissionais, entre eles: Susan Brady, Hugh Catts, Emerson Dickman, Guinenere Éden, Jack Fletcher, Jeffrey Gilger, Robin Moris, Harley Tomey e Thomas Viall.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV (2002) caracteriza a dislexia como comprometimento acentuado no desenvolvimento das habilidades de reconhecimento das palavras e da compreensão da leitura. O diagnóstico é realizado somente se esta incapacidade interferir significativamente no desempenho escolar ou nas atividades da vida diária (AVD’s) que requerem habilidades de leitura. A leitura oral no disléxico é caracterizada por omissões, distorções e substituições de palavras e pela leitura lenta e vacilante. Neste distúrbio, a compreensão da leitura também é afetada.

Fonseca (1995), coloca que a dislexia trata-se de uma desordem (dificuldade) manifestada na aprendizagem da leitura, independentemente de instrução convencional, adequada inteligência e oportunidade sócio-cultural. E, portanto, dependente de funções cognitivas, que são de origem orgânica na maioria dos casos.

Condemarim (1986), expressa seu pensamento sobre dislexia dizendo que é um conjunto de sintomas reveladores de uma disfunção parietal (o lobo do cérebro onde fica o centro nervoso da escrita), geralmente hereditário, ou às vezes adquirida, que afeta a aprendizagem da leitura num contínuo que se estende do leve sintoma ao severo. É frequentemente acompanhada de transtorno na aprendizagem da escrita, ortografia, gramática e redação.

Lima (2002), enfatiza que todo processo de aprendizagem está articulado com a história de cada indivíduo, e o ser humano aprende mais facilmente quando o novo pode ser relacionado com algum aspecto da sua experiência prévia, com o conhecimento anterior, com alguma questão que o indivíduo se colocou, com imagens, palavras e fatos que estão em sua memória, com vivências culturais.

Exatamente esse é um ponto primordial do desenvolvimento humano: conhecimento prévio. Fatores totalmente individuais que diz respeito ás vivências que cada indivíduo esteve em contato até aquele exato momento. Não se pode exigir que uma criança descreva o Corcovado sendo que ela jamais esteve lá, ou jamais viu algum documentário ou fotos, ou ainda, reportagens sobre esse local. As relações com o mundo exterior que o indivíduo desenvolve durante sua vida são fundamentais para o desenvolvimento das habilidades cognitivas. Ler e escrever não são atos naturais, são processos que vão sendo desenvolvido durante a vida escolar e, familiar, pois é dentro da família que temos a nossa primeira “escola” de vivências, costumes, cultura, hábitos de higiene, forma de alimentar-se, de vestir-se, enfim, a família é o que forma a base de qualquer ser humano, e são essas informações que vão ou não, tornar mais simples ou dificultosa a caminhada escolar.

3.2 Prevalência da dislexia

Os distúrbios de leitura e escrita atingem de forma severa cerca de 10% das crianças em idade escolar. Se forem considerados também os distúrbios leves, este percentual chega a 25% (CAPOVILLA, 2002; PIÉRART, 1997). Logo, é essencial a condução de pesquisas sobre avaliação e intervenção em tais distúrbios de leitura. Conforme colocado por Grégoire (1997), o distúrbio específico de leitura é geralmente chamado de dislexia nos países de língua francesa e de distúrbio de leitura (reading disability) nos países de língua inglesa. Apesar das divergências quanto ao nome da síndrome, há uma razoável concordância sobre sua definição.

Segundo a World Federation of Neurologists (1968), dislexia do desenvolvimento é o distúrbio em que a criança, apesar de ter acesso à escolarização regular, falha em adquirir as habilidades de leitura, escrita e soletração que seriam esperadas de acordo com seu desempenho intelectual. Segundo a definição do National Institute of Health americano, a dislexia é “um dos vários tipos de distúrbios de aprendizagem. É um distúrbio específico de linguagem de origem constitucional e caracterizado por dificuldades em decodificar palavras isoladas, geralmente refletindo habilidades de processamento fonológico deficientes. Essas dificuldades em decodificar palavras isoladas são frequentemente inesperadas em relação à idade e outras habilidades cognitivas e acadêmicas, elas não são resultantes de um distúrbio geral do desenvolvimento ou de problemas sensoriais.” (ORTON DYSLEXIA SOCIETY, 1995, p. 2).

3.3 Acometimentos da dislexia

Rotta (2006) Constatou que as diferenças estruturais entre o cérebro das pessoas com dislexia e o das pessoas sem dislexia concentram-se fundamentalmente no plano temporal. Além da simetria incomum dos planos temporais, o cérebro de leitores disléxicos tem alterações na citoarquitetura e alterações do cerebelo e suas vias. Isso ocorre provavelmente porque houve algum tipo de agressão nos primeiros estágios do desenvolvimento. Finalmente, os neurônios de tecido cerebral dos leitores disléxicos parecem ser menores que a média, pelo menos em algumas áreas de cérebro (por exemplo, o tálamo). O tamanho menor dos neurônios talâmicos pode muito bem estar ligado às anormalidades tanto do sistema visual quanto no sistema auditivo de indivíduos com dislexia. O estudo de Galaburda e colaboradores , em 2001, (apud Rotta 2006) demonstrou experimentalmente que as alterações na citoarquitetura do córtex temporal e dos tálamos determinam um processamento lento dos sons.

Ianhez e Nico (2002) e Cuba dos Santos (1987) listam vários “sinais” e “sintomas” como decorrentes do que tomam por dislexia. Nessas listas, citam questões como: dificuldade com cálculos mentais, dificuldade em organizar tarefas, dificuldade com noções espaço-temporais, entre outras, tais como:

-Desempenho inconstante com relação à aprendizagem da leitura e da escrita;
-Dificuldade com os sons das palavras e, consequentemente, com a soletração;
-Escrita incorreta, com trocas, omissões, junções e aglutinações de fonemas;
-Relutância para escrever;
-Confusão entre letras de formas vizinhas, como “moite” por “noite”, “espuerda” por “esquerda”;
-Confusão entre letras foneticamente semelhantes: “tinda” por “tinta”, “popre” por’ “pobre”, “gomida” por “comida”;
-Omissão de letras ou sílabas, como “entrando” por “encontrando”, “giado” por “guiado”, “BNDT” por “Benedito”;
-Adição de letras ou sílabas: “muimto” por “muito”, “fiaque” por “fique”, “aprendendendo” por “aprendendo”;
-União de uma ou mais palavras ou divisão inadequada de vocábulos: “Eraumaves um omem” por “Era uma vez um homem”, “a mi versario” por “aniversário”;
-Leitura e escrita em espelho.

3.4 Relevância na dislexia

Nem toda criança com dificuldade de aquisição da fala é disléxica, mas que tal dificuldade, aliada a outros sintomas, pode determinar o diagnóstico. Quando este sintoma está associado a outros casos familiares de dificuldades de aprendizado – dislexia é, comprovadamente, genética, afirmam especialistas que essa criança pode vir a ser avaliada já a partir de cinco anos e meio, idade ideal para o início de um programa adequado a esta especificidade que pode trazer as respostas mais favoráveis para superar ou minimizar essa dificuldade. (ALMEIDA, 2004).

Segundo Almeida (2004), a dificuldade de discriminação fonológica leva a criança a pronunciar as palavras de maneira errada. Essa falta de consciência fonética, decorrente da percepção imprecisa dos sons básicos que compõem as palavras, acontece, já a partir do som da letra e da sílaba. Essas crianças podem expressar um alto nível de inteligência, “entendendo tudo o que ouvem”, como costumam observar suas mães, porque têm uma excelente memória auditiva. Portanto, sua dificuldade fonológica não se refere à identificação do significado de discriminação sonora da palavra inteira, mas da percepção das partes sonoras diferenciais de que a palavra é composta. Esta é a razão pela qual o disléxico apresenta dificuldades significativas em leitura, que leva a tornar-se, até, extremamente difícil sua soletração de sílabas e palavras. Por isto, sua tendência é ler a palavra inteira, encontrando dificuldades de soletração sempre que se defronta com uma palavra nova.

3.5 O que é Síndrome de Irlen?

A caracterização desta síndrome foi feita pela psicóloga Helen Irlen (IRLEN, 1991), com um estudo prospectivo envolvendo centenas de adultos considerados analfabetos funcionais pela leitura deficiente e baixa escolaridade. O estudo, aprovado e financiado pelo Governo Federal Americano, foi apresentado perante a Associação Americana de Psicologia em Agosto de 1983. A pesquisadora concentrou seus estudos nos sintomas “visuais” que estes adultos apresentavam, denominando-os de Síndrome da Sensibilidade Escotópica – fazendo alusão ao escuro – devido à preferência por locais menos iluminados durante tarefas com maior exigência visual. Além da fotofobia, cinco outras manifestações podiam estar presentes: problemas na resolução viso-espacial, restrição de alcance focal, dificuldades na manutenção do foco e astenopia ou cansaço nos olhos, e na percepção de profundidade.

Helen Irlen (1991) relata ainda que a fotofobia geralmente se manifesta através de queixas de brilho ou reflexo do papel branco, que compete com o texto impresso e desvia a atenção do conteúdo a ser lido, comprometendo a atenção. Luzes fluorescentes são particularmente desconfortáveis e geram irritabilidade. Até mesmo a luz solar direta, faróis de carros e postes à noite causam incomodo aos portadores da Síndrome de Irlen e cefaleias por essa exposição. Em muitos casos, há hábito de uso constante de óculos de sol.

A Síndrome de Irlen (S.I.) é uma alteração visuoperceptual, causada por um desequilíbrio da capacidade de adaptação à luz que produz alterações no córtex visual e déficits na leitura. A Síndrome tem caráter familiar, com um ou ambos os pais também portadores em graus e intensidades variáveis. Suas manifestações são mais evidentes nos períodos de maior demanda de atenção visual, como nas atividades acadêmicas e profissionais que envolvem leitura por tempo prolongado, seja com material impresso ou computador. (IRLEN, 2009, p. 16).

3.6 Desconforto da Síndrome de Irlen

As alterações da habilidade de resolução viso-espacial produzem sensação de desfocamento e de movimentação das letras que pulsam, tremem, vibram, aglomeram-se ou desaparecem, impactando na atenção e compreensão do texto que esta sendo lido. As distorções à leitura foram também objeto de relatos por parte de outros autores como Meares (1980), Whiting (1985) e Robinson & Miles (1987).

Segundo Marcia Guimarães (2009), a restrição do foco limita a abrangência visual e reduz o número de letras apreendidas fazendo com que palavras sejam vistas parceladamente, o que requer uma segunda etapa associativa para coerência e compreensão. A restrição no alcance focal pode ainda causar dificuldades na organização do texto em segmentos significativos ou porções sintáticas, sendo esta uma característica presente em leitores deficientes. Em geral, bons leitores ampliam progressivamente o campo de visão, passando a reconhecer as palavras familiares pelo conjunto ou lexicalmente de forma a registrar as pistas visuais necessárias para uma interpretação rápida e correta do significado do texto naquele ponto.

As dificuldades na manutenção da atenção do foco, pelo fato do texto impresso apresentar-se menos nítido ou desfocado após um intervalo variável em leitura, produz estresse visual ou astenopia. A astenopia, sempre presente em intensidade variável, se caracteriza pelo desconforto visual associado à sensação de ardência e ressecamento ocular, aumento da necessidade de piscar, olhos vermelhos e lacrimejantes, necessidade de coçar e apertar os olhos, com mudanças na posição e distância da cabeça até o papel impresso, sonolência e busca de pausas para “descanso visual”. (GUIMARÃES, 2009).

Guimarães (2009) completa que as dificuldades com percepção de profundidade, habilidade que possibilita a correta avaliação tridimensional, tem impacto direto em atividades como dirigir, estacionar, prática de esportes com bola, de movimento em geral, descer e subir escadas, atravessar portas, passarelas, usar escadas rolantes entre muitas outras situações cotidianas, nas quais a antecipação visual constitui fator de segurança e rapidez de ajuste ao ambiente. Segundo ela, os sintomas físicos da Síndrome de Irlen são essencialmente oculares, ocorrendo lacrimejamento, prurido e ardência ocular, tendência à esfregar os olhos e/ou tampar/fazer sombra enquanto lê, apertar e/ou piscar os olhos excessivamente, balançar ou tombar a cabeça, sensação de cansaço após 10 a 15 minutos de leitura – que é feita preferencialmente na penumbra – além de história familiar de dificuldades com leitura e fotofobia.

3.7 Acometimento e sintomas

A prevalência é alta, pois atinge de 12-14% da população em geral, incluindo bons leitores e universitários e torna-se proporcionalmente mais frequente quando há concomitância com déficits de atenção e Dislexia (33 a 46% dos casos). Estudo recente, realizado em escola municipal da rede publica em Belo Horizonte, detectou ainda uma incidência de 17% entre alunos com dificuldade de leitura. (FARIA, 2011).

Atualmente estão sendo revistas as relações entre as lesões pós-traumáticas, envolvendo o cérebro, e os comprometimentos secundários da eficiência visual com exacerbação da fotossensibilidade e déficits na oculomotricidade, gerando impactos na leitura, aprendizagem, memória e estabilidade emocional. Sabe-se que também podem ocorrer na Dislexia, Déficits de Atenção e Hiperatividade, no Autismo e durante o uso de certos medicamentos. Como os sintomas são semelhantes, o diagnóstico diferencial é indispensável para que a conduta ideal seja adotada o mais precocemente possível, uma vez que a intervenção gera benefícios nas outras áreas do processamento, como as auditivas, motoras e cognitivas. (TALLAL, 1980).

De acordo com Tallal (1980), são sintomas comuns: a confusão entre os números, percepção de distorções visuais em páginas de texto, leitura de palavras de baixo para cima e inversão de letras e palavras, espaçamento irregular, dificuldades em manter-se na linha ao escrever, lentidão e baixa compreensão. Entretanto inexistem outros aspectos que facilitarão na condução de um diagnóstico diferencial satisfatório. Na Síndrome de Irlen, ao contrário da Dislexia, estarão ausentes as alterações na percepção auditiva, escrita invertida, pronuncia incorreta, dificuldade na aquisição da fala e escrita, escrita espelhada e déficits na compreensão de ordens verbais, cuja intervenção será supervisionada por fonoaudiólogos. Do mesmo modo, a prolixidade, impulsividade, falta de autocontrole pessoal ou em grupo, agitação e hiperatividade física são componentes dos quadros de déficits de atenção e hiperatividade e a intervenção medicamentosa, quando recomendada, será feita pelo neurologista responsável pela coordenação destes atendimentos multidisciplinares.

Sejam em comorbidade, ou isoladamente, estes distúrbios provocam uma série de manifestações semelhantes e por isto, diversos autores preconizam o rastreamento da Síndrome de Irlen em crianças com dificuldades na leitura, fotossensibilidade e manutenção de atenção aos esforços visuais prolongados, como uma forma de evitar diagnósticos equivocados de Dislexia, DTA e TDAH e ainda para minimizar a medicação em pacientes onde a agitação e desatenção são resultantes do estresse visual e dificuldade em se ajustar às condições de luminância de uma sala de aula, por exemplo. (GUIMARÃES, 2009).

3.8 Triagem da Síndrome de Irlen

Marcia Guimarães (2010) explica que a identificação da Síndrome de Irlen é feita por profissionais da saúde e educação devidamente capacitados pelo Hospital dos Olhos do Dr. Guimarães a identificar (teste de screening ou rastreamento) os portadores da síndrome, através da aplicação de um protocolo padronizado conhecido como Método Irlen, e classificar o grau de intensidade das dificuldades visuoperceptuais dos casos suspeitos. O teste de screening é feito após avaliação da acuidade visual e sob correção refracional atualizada, quando necessária. Pelo screening verificam-se os benefícios, com a supressão das distorções visuais, pela interposição de uma ou mais transparências coloridas selecionadas individualmente pelo portador da Síndrome de Irlen.

Uma vez determinada a transparência ideal da lamina de overlay, o portador passa a usá-la sobre o texto durante a leitura ou cobrindo a tela do computador enquanto lê, obtendo benefícios imediatos no conforto visual, fluência e compreensão.

A neutralização das distorções facilitará o reconhecimento das palavras lidas, mas obviamente não permitirá que a pessoa leia palavras que não sabe. Para estes indivíduos, a leitura sempre foi sinônimo de dificuldade e a rejeição tornou-se um habito incorporado – é preciso considerar que pode haver anos de atraso em relação aos leitores regulares que puderam adquirir um substancial vocabulário visual de reconhecimento instantâneo. Obviamente, o aprendizado das palavras será facilitado por não mais se apresentarem distorcidas – mas a assistência ao aprendizado será importante e sem ela a leitura permanecerá sendo uma atividade difícil e estressante.

Do mesmo modo, o uso de filtros não será o único fator necessário para o aperfeiçoamento no desempenho da leitura, porém nos casos de Síndrome de Irlen a opção pelo tratamento significará um recurso não invasivo, de baixo custo e alta resolutividade, possibilitando a seus usuários uma potencialização dos benefícios aferidos aos seus esforços acadêmicos e profissionais, além de facilitar o trabalho da equipe multidisciplinar que os assistem. Portanto, se faz necessário explicar que as laminas de overlay, assim chamadas por motivo de patente, são feitas de uma material transparente de tamanho A4, que se utiliza na sobreposição em cima de livros ou até mesmo na tela do computador; enquanto os filtros são exclusivamente solicitados pelo Hospital dos Olhos do Doutor Guimarães com sede em Belo Horizonte – MG; consta da aplicação dos filtros num óculos de uso normal, com grau ou sem, especialmente desenvolvidos no Canadá pelo grupo da Doutora Helen Irlen, por especialistas que fazem manualmente, um a um, a aplicação dos filtros em uma lente comum. O processo de aplicação manual leva em média 4 dias, e o tramite de envio dos óculos do paciente até o Canadá, leva em média 1 mês para ficar pronto. No hospital dos olhos são feito mais uma gama de exames de refração e acuidade visual para confirmação ou não de grau, e também, são utilizados aparelhos sofisticados para a confirmação do screening. É interessante observar que a boa parte dos portadores não tem consciência de suas distorções à leitura, como estas aparecem após um tempo médio de 10 a 15 minutos de leitura, eles pressupõem que isto ocorra a todos – sem se dar conta de que a dificuldade é só deles – e mais ainda se estiverem sob excesso de luzes fluorescentes, contraste, cores fortes, muito volume de texto por pagina, letras menores e impressão em papel brilhante. O mais preocupante é que esta é exatamente a situação em que se aplica a prova do ENEM – centenas de estudantes com Síndrome de Irlen não identificada terão seu desempenho prejudicado pelo estresse visual e hipersensibilidade à luz, cansaço progressivo e dificuldade em manter a atenção por tempo prolongado, com erros na transferência de gabaritos e falta de compreensão por déficits na eficiência visual.

Classicamente, os profissionais envolvidos com a triagem, diagnóstico e tratamento dos Distúrbios de Aprendizagem são os psicólogos, pedagogos, neurologistas, fonoaudiólogos, psiquiatras e pedagogos, cabendo ao oftalmologista a identificação e tratamento dos distúrbios visuais, um papel incorretamente considerado secundário neste trabalho multidisciplinar. Tradicionalmente o oftalmologista concentra sua atenção na aferição da acuidade visual, correção refracional quando necessária, e identificação de patologias (catarata, glaucoma, estrabismo, etc). Porém a visão é o sentido mais importante na aprendizagem, com uma dependência estimada em 80% até os 12 anos de idade, e os impactos dos déficits neurovisuais são sempre significativos, e no entanto a sua identificação pelo exame oftalmológico padrão seria insuficiente, pois o oftalmologista atual privilegia a acuidade da visão e fatores ligados ao trabalho ocular, além de condições ópticas. Mal comparando, seria como avaliar o computador (hardware), quando o paciente possui déficits no processamento visual cerebral (software). (GUIMARÃES, 2010, p. 19).

É relevante assinalar que o “conceito de visão” que o oftalmologista possui determinará a forma como aborda as queixas e sintomas visuais dos pacientes com distúrbios de aprendizagem. As conclusões geradas de seus exames e a forma como investiga as relações entre elas dependerão não apenas do tipo de exame realizado, mas também de seu conhecimento clínico na área específica, das queixas fundamentais, do direcionamento de sua anamnese e ainda de sua capacidade de interação com os demais profissionais da área de saúde e educação, com os quais passará a se relacionar não mais de forma passiva, mas como interventor e facilitador das decisões trans e multidisciplinares que afetarão o futuro escolar desta população.

4.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em analise das informações supra citadas foi possível perceber que a definição da Síndrome de Irlen pela Doutora Helen Irlen foi um estudo de base empírica, que demonstrou os reais problemas que envolvem uma grande parte de pessoas ditas “disléxicas” quando na verdade, são portadores de uma Síndrome que possui características muito semelhantes às da dislexia, contudo, vale lembrar que na dislexia há problemas de ordem neurológica que causam dificuldades que vão além de desconfortos como a astenopia ou fotofobia. Na Síndrome de Irlen as pessoas sofrem por desconfortos como dores de cabeça, enjoos, dores de estômago, sensação de tonturas quando esta dentro de um carro como passageiro, contudo se esta dirigindo não sente nenhum mal estar, são pessoas que normalmente não conseguem terminar de ler um livro por completo, em casos de grau avançado de Irlen. Na idade escolar de alfabetização, o portador da Síndrome de Irlen pode fazer inversões, trocas de letras, pular palavras ao copiar, pular de linha ao tentar ler, e esses sinais são facilmente confundidos com a dislexia.

Deparamos-nos com avaliações pouco precisas e não tão comprometidas de profissionais que se julgam experientes, mas que desconhecem a Síndrome de Irlen. Desse modo, constata-se a importância de se desenvolver um trabalho multidisciplinar com a ajudar de profissionais de todas as áreas: médica e educacional; pois, é errôneo fechar diagnósticos de dislexia sem ter esgotados possibilidades de qualquer outro tipo de problema, porque uma pessoa que se diz disléxico, não deixará em nenhum momento da vida de sê-lo, pode sim, criar métodos, caminhos, maneiras de facilitar sua vida escolar e acadêmica, contudo, não terá “cura” seu problema de dislexia. Bem como um portador da Síndrome de Irlen, contudo, nesse caso, há necessidade de ser feito uma revisão nas laminas ou filtros a cada ano, para verificar se o processo de acomodação da percepção visual esta sendo minimizado. E sendo necessário, poderá haver até uma possível troca de lamina, ou quando for o caso, troca dos filtros que são aplicados às armações de óculos comuns ou com grau.

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